sexta-feira, 29 de maio de 2009

CONFLITO


Sabe! Eu nunca me vi trilhando caminhos demarcados pela vil sociedade de consumo. Desde a infância eu nunca consegui ser o fantoche que todos esperavam; foi assim no cotidiano, nos desertos noturnos e até mesmo nos pensamentos solitários em dias de abandono.
Como um imã sempre fui atraído para a dita marginalidade social, muito embora tenha seguido todas as regras do bom menino.
No submundo da ignorância eu trilhei miseravelmente, transpondo o conhecimento adquirido as duras penas e lá aprendi que a fidelidade esta na cabeça do probo laborioso que não tem tempo para olhar ao redor da própria existência.
Talvez alguém duvide que a margem da ficta sociedade exista honradez, mas lhe afirmo com toda convicção que lá se encontra a verdadeira amizade que os engravatados desconhecem.
A vida me deu a oportunidade de conhecer os dois mundos nesse imenso emaranhado de soberba e desgraça, e conhecendo os dois patamares, sem contrição alguma sustento a tese da inversão; a soberba vem acompanhada de uma série de desgraças, enquanto que nas desgraças existe certa gama de soberba.
Quando navegava em águas mansas no banco de uma faculdade, conheci a mulher dos meus sonhos que mais tarde tornaria a mulher de meus pesadelos. Eu não estava preparado para administrar anseios demasiadamente distintos, pois pensava como um laborioso probo, acreditando sempre que a parceria entre um homem e uma mulher era duradoura e monogâmica e a decepção que não tardou a surgir, me refugiou nas entranhas das alcovas de aluguel.
Na memória, os guardiões dos pensamentos eliminaram como se deleta um arquivo indesejado o sublime sentimento que nos causa alegria e dor. O amor já não fazia mais parte deste dilacerado coração, mas o passado retorna de forma intensa, pois algum neurônio hacker recuperou os arquivos perdidos e novamente expôs o sentimento na página inicial onde mais uma vez o conflito se estabelece.
A desordem provocada pela sedução felina me faz confundir se diz a verdade ou oculta em suas entranhas a febre do amor. Quero crer em suas palavras, mas tão somente palavras não são o suficiente que transpor as atitudes; o sim em verdade é não e o não vivamente é um talvez que por sua vez jamais possa associar-se a um sim.
Realidade ou quimera?

DOR DE AMOR


A noite estava gelada quando a mulher depositou seu belo corpo na cadeira de área entrelaçando entre laços.
Rogério do Prado, completamente embriagado que até então distante estava, se aproximou cambaleante trazendo em suas mãos um litro de aguardente para aquecer o gélido peito de Amanda.
Ao lado, na velha vitrola, tocava um long play tão antigo quando quanto os cabelos brancos do ébrio. Mal conseguia manter-se em pé, mas trazia em seu interior a beleza que somente àqueles que são totalmente emoção conhece; um amor profundo bem maior que qualquer delírio que viesse aflorar, justamente como veio acontecer momentos mais tarde.
Amanda que naquela hora tentou rejeitar a aproximação de Rogério acabou permitindo, afinal, estava mais solitária que a própria noite. Não se sabe ao certo se por carência ou simplesmente por prazer efêmero, a bela jovem senhora de meia idade, tomou a garrafa das mãos do parceiro de infortúnio tragou o liquido ardente como se estivesse degustando o mais nobre dos vinhos.
As horas foram passando como quem passa pela vida todas as tristezas e felicidades adquiridas ao longo da existência, até que a lua alta anunciou que a madrugada chegara o que fora percebido pelo casal ao buscar o último gole na garrafa vazia.
Rogério não permitiria de forma alguma que sua amada de anos deixasse aquele prazeroso momento pelo simples fato de não haver mais nenhum liquido precioso a ser ingerido e sugeriu que fossem até a taberna que aberta permanecia o que de pronto Amanda se colocou a disposição.
Ao chegarem naquele estabelecimento Rogério de estalo percebeu que tinha cometido o maior deslize que um ser apaixonado poderia cometer; na mesa aos fundos do bar lá estava Cincinato, sabido conquistador das redondezas e por quem Amanda nutria uma paixão antiga.
Ela ao avistar sua paixão, imediatamente dirigiu-se a mesa de Cincinato deixando Rogério como se este não existisse.
Percebendo que a concorrência naquele exato instante seria desleal, o pobre homem retornou a sua insignificância não antes de apoderar-se de mais um litro da amarga aguardente que lhe serviria de consolo.
Realidade ou quimera?

TORTUOSA TOLERANCIA


Caro leitores! Meu nome é Asdrúbal Toledo de Castro e Silva, tenho sessenta e cinco anos de idade, sou o que se chamam de uma pessoa bem sucedida na vida, pois as pessoas em sua grande maioria calculam a felicidade através dos bens materiais que o homem consegue juntar durante sua existência, mas devo confessar que a felicidade não esta nos bens, mas sim no bem, na amada, no amor, enfim, a felicidade resume-se tão somente em momentos felizes.
Àqueles que me conhecem devem estar se perguntando: O que um homem que conseguiu quase tudo que o dinheiro pode dispor esta se lamentando? Eles não sabem o que é ser uma pessoa de mal com as escolhas amorosas, sempre gostei de quem não devia ou se deveria gostar, eu sentia um medo intenso e corria como um menino assustado.
Nunca assumi um compromisso sério com a verdadeira e única mulher que amei, pois tinha um péssimo habito; freqüentar as casas de tolerâncias, sem contar que tolerantemente fiquei a espera de uma mulher que tolerante era.
A busca incessante pela paz espiritual nos braços de uma mulher que me pudesse fazer feliz fez com que trilhasse caminhos tortuosos e como eles, tortuoso me tornei.
Nunca me adaptei bem com as relações sexuais tradicionais, sempre procurei algo diferente nas curvas de uma mulher e confesso; em muitas delas encontrei deleites que me fizeram parcialmente realizado, mas havia uma que encontrei nos bares da vida que bagunçou por completo o pouco de raciocínio que ainda me restava. Foi uma paixão avassaladora sem escrúpulos e sem limites e como toda insanidade, pouco durou, mas o suficiente pra entender que jamais encontraria uma mulher com tamanha habilidade na felação, uma verdadeira artista de alcova.
Sai a sua procura por anos a fio quando adquiri meu primeiro patrimônio móvel. Eu a procurava nas ruas, nas calçadas, nas boates, nas faculdades, nas vielas e porque não dizer no submundo da intolerância, de onde sempre embriagado deixa sem esquecer um só instante o infortúnio de um homem sem guarida.
Já no apagar das luzes, quando a ribalta negra se faz, uma silhueta de mulher atravessa o palco da ilusão onde o solitário ator perplexo se vê, uma nova e derradeira chance bate a porta, mas já é tarde para sozinho ficarmos.
Realidade ou quimera?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

FEITICEIRA DO UNIVERSO

Sabe! Há momentos na vida que precisamos da tranqüilidade absoluta, o repouso dos justos e para que possamos atingir o álamo caso isso seja possível.
Eu cheguei cansado do trabalho e não queria ver ninguém a não ser o meu próprio eu e assim mesmo de bem longe, pois creio que hoje eu não me suportaria contiguo.
Engraçado, na noite anterior eu estava nos braços da morena e nenhum desespero passava por minha mente; nenhuma maledicência circulava na memória, estava eu sobrevoando a linha da paixão em céu de brigadeiro. Fico me perguntando como as reações dos seres humanos vão de uma extremidade a outra numa fração de segundos.
Um dia! apenas um misero dia sem a feiticeira do universo e meus pensamentos voam a lugares escusos, desvairadamente apertando o peito gélido, buscando na imaginação seu semblante, tentando adivinhar como, quando e com estais!
Durante toda uma existência ela foi e continua sendo a única mulher que serenamente me transporta em seus braços a ribalta e com seu sorriso de menina me esquece no fundo da coxia como um fantoche ao fim do espetáculo.
Eu não podia permitir que minhas loucas reflexões interferissem no que de belo há entre dois corpos sedentos e tão pouco me deixar abater pelo manto negro do ciúme, isso já o fizera em tempos outros e de todas a ira que fomentava a época, somente o manto azul da solidão trilhou comigo como verdadeiro companheiro de infortúnio.
Certa vez o eremita Josias, um velho sábio que habita a gruta de pedra encravada na serra da esperança me presenteou com um livro de poesias não antes de expressar:
- Somente a literatura transportará seus sonhos e a música é o vetor da alma.
Sinceramente eu não havia entendido a mensagem, mas como todo leigo que se preza, reverenciei seu conhecimento e sorridente o deixei.
Hoje! Creio que compreendo o que o velho sábio me disse ao pé da gruta e seguindo seus ensinamentos coloquei na vitrola um velho “bolachão” e apanhei o livro de poesia que há muito empoeirado permanecia na estante e a farpa que teimava em rasgar o peito foi retirada com toda a mácula que a envolvera.
Ainda navegando em minh´alma o doce sabor de seus deleites, compreendo que por mais que haja um turbilhão nesse mar de conjecturas desconexas, continuarás sendo a feiticeira do universo e eu o senhor de seus sonhos.
Realidade ou quimera?